quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A vida é bela...


Porque para nós, “A Vida é Bela”...

Viemos de uma família numerosa e tivemos a felicidade de ter uma infância linda com mãe sempre presente e um pai muito especial que...

...Chegava sempre à noite e sentado em uma de nossas camas ouvia pacientemente sobre o nosso dia, depois, com sua voz extremamente doce nos contava as histórias dos Milagres de Jesus;

...Passava os finais de semana com o violão debaixo do braço cantando ou declamando poesias de sua própria autoria;

...Colocava na vitrola a mais famosa ópera e nos fazia ouvir sob narrativas emocionadas e paradas estratégicas para que sentíssemos a música;

...Sentava no sofá com os filhos em conversas intermináveis, salpicadas de lembranças da sua própria infância, mesmo que contadas repetidas vezes, tinham sempre mais encanto.

Quando fomos ficando adultos e começamos a perceber que nem todo pai é espírita, cantor e poeta e que nem tudo é assim tão cor-de-rosa, chegávamos até ele choramingando e querendo reclamar das lutas da vida, ele tinha a frase perfeita, que traz à mente todas as bençãos divinas comuns aos seres humanos: o amor, a arte, o céu, os pássaros, as flores...

Ele dizia: - Filha, “A Vida é Bela”.

O que me faz feliz...

Sempre que eu quero me sentir feliz busco uma maneira de ser anjo na vida de alguém. Não se trata de pretensão nem preocupação com a auto-imagem, mas sim a busca pela melhor das sensações que eu já pude ter...

Todas as vezes que consegui realizar algo que proporcionasse uma breve trégua no sofrimento de alguém experimentei a maior satisfação...

Você não calcula o bem estar que dá você pegar uma criança bem sujinha e desconfortável, dar banho, colocar roupa limpa, pentear os cabelinhos e dar um prato de comida bem quentinho...

Parece demagogia quando a gente tenta verbalizar, mas é preciso que se fale que não é preciso ser santo, nem rico, nem missionário, para viver um momento de anjo, ou melhor, intermediar os anjos.

Vivemos num mundo em que se buscam grandes emoções, aventuras e atividades de toda espécie e essas com todo o prazer que elas proporcionam, muitas vezes não saciam aquela insatisfação que nos é tão peculiar.

Talvez por receio da demagogia, ou naquela de que “cada um com os seus problemas”, deixemos de nos proporcionar verdadeiros momentos de alegria.

Descubra como é prazeroso ver alguém saborear algo gostoso, aquelas coisas tão comuns à nossa mesa e impossíveis na dele. Posso garantir que às vezes dá muito mais prazer que ir a um bom restaurante saciar uma vontade nossa.

Oferecer um banho quente, uma roupa limpa, uma sopa reconfortante, tão comuns em nossas vidas é muitas vezes um bálsamo, uma luz no fim do túnel, o surgimento da esperança perdida.

Parece óbvio? A televisão está cheia de “reality shows” que tentam nos prender em sensações que exibem a emoção de proporcionar algo de bom a alguém e ficamos de platéia sem perceber que qualquer um de nós tem inúmeras ocasiões para um gesto de amor todos os dias.

Há uns vinte anos atrás, quando eu tinha meus filhos ainda pequenos, passava na frente da minha casa uma catadora de papel com três filhinhas com mais ou menos, 7, 5 e três anos, sempre que possível eu lhes dava algo, mas uma vez ou outra, talvez por que chovesse, eu pedia para a mãe que as deixasse comigo enquanto ela andava pelo bairro, nesse interim eu lhes dava banho e comida, quando ela voltava, as meninas estavam felizes assistindo televisão.

Outro dia passou uma moça com um carrinho na minha porta e me disse:
_ A senhora não se lembra de mim né? Eu sou a Elaine, filha da catadora de papel que a senhora ajudava, era a de sete anos. Eu já tenho 26 anos, continuo nessa “profissão”, tenho cinco filhos, nunca me esqueci da senhora...

Pois é... Nem sempre veremos grandes transformações, pois será apenas um gesto, mas esse pequeno gesto se perpetuará na vida dessa pessoa como um sinal do bem, de esperança, e principalmente de amor entre os seres humanos.

Vamos lá, tente.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Maria

Há 18 anos, quando a Marta estava com apenas dois meses, abri a porta da frente da casa e coloquei o carrinho do bebê bem no beiral para aproveitar a pequena faixa de sol matinal que bate na minha sala no inverno e me sentei no sofá.

De repente surge em frente ao portão uma menininha gordinha, baixinha, vestida em andrajos, que com um sorrisinho maroto me disse:

__ Tia me deixa segurar um pouquinho esse nenê?

__ Como assim, suja desse jeito você quer pegar na minha nenezinha?

__ Ah, tia, deixa vai?

Já premeditando a idéia de cuidar da menina eu respondi:

__ Só se você tomar um banho e colocar uma roupa limpa.

__ Ta bom, eu topo.

Foi assim, aquela menininha que aparentava não ter mais que seis anos, não só pelo tamanho, mas pelo rostinho miúdo, na verdade estava com nove anos e desde então passou a ir à minha casa diariamente.

Preocupada com o fato de ela aparecer só, vir de ônibus e de longe, eu peguei o seu endereço e fui até sua casa. Sua mãe trabalhava o dia todo e já não tentava mais prendê-la em casa, pois ela já havia passado diversas vezes pelo SOS Criança e sempre “caia no mundo”. Fiquei sabendo que a mãe era alcoólatra, desde a infância.

A minha caçula, a Marta, já era a sexta da numerosa prole, mas as visitas espontâneas da Maria me conquistaram e ela foi ficando. Foi ficando e provocando uma revolução na minha casa. Como a minha vontade de ajudar era contagiante, todos acabaram concordando.

A Maria era alegre, barulhenta e brincalhona ao extremo, fazia gozações com tudo e com todos durante todo o tempo. Eu tentava explicar que a falta de educação da Maria não iria como a sujeira pelo ralo do banheiro, necessitava de paciência e de compaixão. Na verdade eu tentava me convencer, pois não era fácil.

No primeiro mês eu já perdi a minha ajudante, excelente pessoa, mas que não tolerou as provocações sarcásticas da Maria. Ela saiu muito brava, dizendo que “eu valorizava mais as pessoas da rua do que quem já estava na minha casa”. A minha filha mais velha, a Fernanda, 13 anos, em plena adolescência, alternava seus sentimentos, ora com surtos de raiva e ora com arroubos de caridade. As crianças se divertiam com ela, mas também brigavam e ela sempre ria muito. O seu carinho com a nenê era lindo, desde o primeiro momento.

O primeiro Natal da Maria com a nossa família foi muito legal... A alegria dela ao abrir os presentes, aquela mesma alegria que nos cativou a todos quando a víamos assistindo pela vigésima nona vez “Free Willy” ou “Esqueceram de mim” sentada na frente da televisão às gargalhadas.

Quando iniciou o ano de 1992, com a autorização da mãe dela eu a matriculei na mesma escola que os meus filhos, aí foi incrível! Ela chegava à minha casa impreterivelmente às 06h15min da manhã, toda descabelada e remelenta, para tomar banho e colocar o uniforme, pois não tinha na casa dela as condições para se arrumar, prender os cabelos, coisa e tal. Aprendi com ela que quando a pessoa quer ser ajudada ela cria condições, se esforça e corre atrás.

Logo no primeiro ano escolar, a professora me chamou na escola e disse que era impossível dar aula com a Maria dentro da sala, que eles fariam um encaminhamento para uns testes, para que ela pudesse ir para a “classe especial”. Ela foi diagnosticada erroneamente, como limítrofe e hiperativa, passando os próximos cinco anos na tal “classe especial”. Hoje eu sei que a seu problema era SAF (Síndrome Alcoólica Fetal), o mesmo problema para o qual eu fui alertada cinco anos depois quando adotei o seu primo recém-nascido.

Toda a escola se adaptou a Maria, talvez por que já conhecesse a família ou porque tivesse a mesma disposição de ajudar, todos interagiam com ela que passava grande parte do tempo entre o refeitório e a secretaria, se dava com colegas, professores e funcionários do mesmo jeito. De qualquer forma ela aprendeu a ler e escrever.

Quando ficou mocinha eu já muito preocupada com a sua impulsividade e como ela já estava dormindo na minha casa a maior parte da semana, pedi a sua guarda para a mãe que me concedeu formalmente no fórum. Daí em diante, se instalou o retrocesso, a inconformação, a inadequação, a Maria voltou a ir para a rua e ficar sem dar notícias por dias.

No dia do seu aniversario de quinze anos fui para o Vale do Anhangabaú, pois haveria um show do Skank e a minha esperança era que ela aparecesse por lá, pois já estava há dias fora de casa. Acabei assistindo todo o show sem encontrá-la, quando ela voltou ficou durante dias cantando as músicas do Skank e me imitando dançar no show. “Seria cômico se não fosse trágico”.

Deduzi que o fato da “sua velha” ter cedido à guarda mexeu muito com ela, fomos novamente ao fórum e com uma carta ao juiz explicando todo o processo que tínhamos vivido retornamos a guarda para a mãe e a Maria foi buscar o seu caminho.

Foram cinco anos de convivência marcante. Hoje já sem o irmão, nem a mãe, ambos falecidos, a Maria tem um companheiro e três filhinhos muito amados e bem cuidados, é trabalhadora, continua a correr atrás de tudo que tem direito “emprego registrado”, “bolsa família”, “cesta básica”, “remédio gratuito”, é uma lutadora.

Ainda bem que não foi feito nenhum laudo sobre seu problema, pois ela é muito melhor que muita gente que se diz normal. Continua me visitando de vez em quando, principalmente perto do seu aniversário e do Natal, festas que ela adora!

Obrigada Maria, você me fez muito bem, você prá mim é exemplo de superação e de garra.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Senhor perdoai aos artistas e principalmente a nós mesmos...



No último final de semana fui assistir uma apresentação da Oficina dos Menestréis, Raul Fora da Lei, minha filha Marta,
18 anos, faz parte do grupo. Foi lindo. Incentivo a todos que assistam, estará no Teatro Dias Gomes, na Rua Domingos de Morais, 348, sábados-21 h e domingos-20h, só em setembro. Informações 5575-7472
www.oficinadosmenestreis.com.br

A peça conta a vida do Raul Seixas com suas próprias músicas. Fiquei muito comovida e resolvi escrever o que venho sentindo desde a morte do Michael e sempre que me lembro de todos os "malucos beleza" que passaram sobre a Terra para o nosso alento:

Toda vez que vejo um artista ser exposto na mídia, não só pela sua morte trágica, mas por qualquer ocorrência “anormal”, me sinto mal.

Acho que o artista deveria ter “imunidade na vida pessoal”.

Todos nós temos o direito de fazer o que bem entendemos e usufruímos disso, mas quando somos públicos a curiosidade dos demais é cruel.

As pessoas quando criticam ou expõe o artista são cruéis, pois imediatamente esquecem o que este já lhes proporcionou, esquecem os momentos de emoção e enlevo e faz deles “qualquer um”, sem dó nem compaixão, e nem com qualquer um é permitido tanto desamor.

Por isso elevo a Deus uma prece:

“Senhor,

Perdoai os deslizes e desatinos de cada artista que aí chegar, seja ele pintor ou fotógrafo, músico ou cantor, um ator, um repentista, qualquer um deles.

Lembrai Senhor que quando o designastes para representar o belo sobre a Terra vós já sabíeis que essa nesga de luz em sua mente, esse vislumbre do intocável, essa inspiração soprando ainda que levemente, tiraria a estabilidade de qualquer mortal.

Vós sabíeis Senhor que o foco na busca da felicidade, o rompimento com as conveniências humanas, o sair do lugar comum, deixaria a alma exposta, com vontade de fugir, com crises de rebeldia, com aquela angústia quase insuportável, às vezes insuportável mesmo, mas que explode em manifestações eternas.

São essas manifestações Senhor que esquecemos, quando criticamos um artista em seus momentos de desequilíbrio, esquecemos que elas é que nos dão forças para continuara viver no lugar comum, elas é que nos garantem as projeções das nossas fantasias e sonhos e por que não dizer, elas é que traduzem o que todos nós sentimos e não conseguimos expressar, ou por que não nos destes o papel, ou por que não soubemos usufruir ainda da nossa divindade.

Senhor perdoe a nossa ingratidão, quando dilapidamos um artista, fazemos com ele o mesmo que fizemos com o Senhor, crucificamos e adoramos, repudiamos e desejamos, injuriamos e cantamos aos quatro cantos.

Senhor ampare o nosso “Maluco Beleza”, a nossa Elis, o nosso Michael Jackson e todos os que foram ao Teu regaço e se possível Senhor deixe-os voltar, mande-nos outros infinitamente, até que possamos ser todos artistas, plenos de amor, de sabedoria e de liberdade.

Que assim seja.