Há 18 anos, quando a Marta estava com apenas dois meses, abri a porta da frente da casa e coloquei o carrinho do bebê bem no beiral para aproveitar a pequena faixa de sol matinal que bate na minha sala no inverno e me sentei no sofá.De repente surge em frente ao portão uma menininha gordinha, baixinha, vestida em andrajos, que com um sorrisinho maroto me disse:
__ Tia me deixa segurar um pouquinho esse nenê?
__ Como assim, suja desse jeito você quer pegar na minha nenezinha?
__ Ah, tia, deixa vai?
Já premeditando a idéia de cuidar da menina eu respondi:
__ Só se você tomar um banho e colocar uma roupa limpa.
__ Ta bom, eu topo.
Foi assim, aquela menininha que aparentava não ter mais que seis anos, não só pelo tamanho, mas pelo rostinho miúdo, na verdade estava com nove anos e desde então passou a ir à minha casa diariamente.
Preocupada com o fato de ela aparecer só, vir de ônibus e de longe, eu peguei o seu endereço e fui até sua casa. Sua mãe trabalhava o dia todo e já não tentava mais prendê-la em casa, pois ela já havia passado diversas vezes pelo SOS Criança e sempre “caia no mundo”. Fiquei sabendo que a mãe era alcoólatra, desde a infância.
A minha caçula, a Marta, já era a sexta da numerosa prole, mas as visitas espontâneas da Maria me conquistaram e ela foi ficando. Foi ficando e provocando uma revolução na minha casa. Como a minha vontade de ajudar era contagiante, todos acabaram concordando.
A Maria era alegre, barulhenta e brincalhona ao extremo, fazia gozações com tudo e com todos durante todo o tempo. Eu tentava explicar que a falta de educação da Maria não iria como a sujeira pelo ralo do banheiro, necessitava de paciência e de compaixão. Na verdade eu tentava me convencer, pois não era fácil.
No primeiro mês eu já perdi a minha ajudante, excelente pessoa, mas que não tolerou as provocações sarcásticas da Maria. Ela saiu muito brava, dizendo que “eu valorizava mais as pessoas da rua do que quem já estava na minha casa”. A minha filha mais velha, a Fernanda, 13 anos, em plena adolescência, alternava seus sentimentos, ora com surtos de raiva e ora com arroubos de caridade. As crianças se divertiam com ela, mas também brigavam e ela sempre ria muito. O seu carinho com a nenê era lindo, desde o primeiro momento.
O primeiro Natal da Maria com a nossa família foi muito legal... A alegria dela ao abrir os presentes, aquela mesma alegria que nos cativou a todos quando a víamos assistindo pela vigésima nona vez “Free Willy” ou “Esqueceram de mim” sentada na frente da televisão às gargalhadas.
Quando iniciou o ano de 1992, com a autorização da mãe dela eu a matriculei na mesma escola que os meus filhos, aí foi incrível! Ela chegava à minha casa impreterivelmente às 06h15min da manhã, toda descabelada e remelenta, para tomar banho e colocar o uniforme, pois não tinha na casa dela as condições para se arrumar, prender os cabelos, coisa e tal. Aprendi com ela que quando a pessoa quer ser ajudada ela cria condições, se esforça e corre atrás.
Logo no primeiro ano escolar, a professora me chamou na escola e disse que era impossível dar aula com a Maria dentro da sala, que eles fariam um encaminhamento para uns testes, para que ela pudesse ir para a “classe especial”. Ela foi diagnosticada erroneamente, como limítrofe e hiperativa, passando os próximos cinco anos na tal “classe especial”. Hoje eu sei que a seu problema era SAF (Síndrome Alcoólica Fetal), o mesmo problema para o qual eu fui alertada cinco anos depois quando adotei o seu primo recém-nascido.
Toda a escola se adaptou a Maria, talvez por que já conhecesse a família ou porque tivesse a mesma disposição de ajudar, todos interagiam com ela que passava grande parte do tempo entre o refeitório e a secretaria, se dava com colegas, professores e funcionários do mesmo jeito. De qualquer forma ela aprendeu a ler e escrever.
Quando ficou mocinha eu já muito preocupada com a sua impulsividade e como ela já estava dormindo na minha casa a maior parte da semana, pedi a sua guarda para a mãe que me concedeu formalmente no fórum. Daí em diante, se instalou o retrocesso, a inconformação, a inadequação, a Maria voltou a ir para a rua e ficar sem dar notícias por dias.
No dia do seu aniversario de quinze anos fui para o Vale do Anhangabaú, pois haveria um show do Skank e a minha esperança era que ela aparecesse por lá, pois já estava há dias fora de casa. Acabei assistindo todo o show sem encontrá-la, quando ela voltou ficou durante dias cantando as músicas do Skank e me imitando dançar no show. “Seria cômico se não fosse trágico”.
Deduzi que o fato da “sua velha” ter cedido à guarda mexeu muito com ela, fomos novamente ao fórum e com uma carta ao juiz explicando todo o processo que tínhamos vivido retornamos a guarda para a mãe e a Maria foi buscar o seu caminho.
Foram cinco anos de convivência marcante. Hoje já sem o irmão, nem a mãe, ambos falecidos, a Maria tem um companheiro e três filhinhos muito amados e bem cuidados, é trabalhadora, continua a correr atrás de tudo que tem direito “emprego registrado”, “bolsa família”, “cesta básica”, “remédio gratuito”, é uma lutadora.
Ainda bem que não foi feito nenhum laudo sobre seu problema, pois ela é muito melhor que muita gente que se diz normal. Continua me visitando de vez em quando, principalmente perto do seu aniversário e do Natal, festas que ela adora!
Obrigada Maria, você me fez muito bem, você prá mim é exemplo de superação e de garra.
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